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gabriel duarteMOMENTOS March 04 MORENINHA DA TRAVESSAMoreninha da travessa
Que atravessa a minha rua
Não vá assim depressa
Nesta calçada nua.
Nesta calçada sua
Um dia ainda tropeça
Tropeça e pode cair
Veja lá não caia nessa.
Mas se cair lhe aconteça
Nessa pressa de correr
Veja se cai nos meus braços
Veja lá se cai depressa October 09 O CAMPO E A CIDADE (UM RETALHO)O homem do campo
com suas vacas, ovelhas,
macieiras, colheitas
e terras de semeadura,
olha para o céu e para as estrelas
para ver como vai estar o tempo.
O homem da cidade,
com ar condicionado no trabalho
e ruas com anúncios luminosos a piscar,
sonha com as ferias, fins de semana, e o automóvel do ultimo modelo.
No corre corre, não olha para o céu,
olha para os outros e para as vitrines
para se ver ao espelho.
March 04 NÃO DEIXEM MATAR AS NOITESMeia noite e um quarto.
Na casa em frente uma criança chora,
Uma mulher fecha as persianas.
No silêncio olho-me por dentro,
Ouço o som do meu proprio pensamento,
A noite é mais bela que o dia.
Faço um balanco,
O que falei está falado,
O que calei está guardado,
As feridas esqueci,
Amo a vida e as gentes.
Estou vivo, tenho sete namoradas
E sete vezes sete amigos quero.
As noites têm muitos rostos,
São mais puras que os dias,
Amo mais, sonho mais.
Descubro, invento, redescubro,
Vejo-me do direito e do avesso,
Tudo é mais intenso, mais sagrado,
Mais verdadeiro.
As palavras, as frases e os gestos
Têm um sentir mais profundo.
Por isso de noite se dizem coisas
Que não se dizem nem escrevem de dia.
Talvez um dos grandes dramas
Dos homens modernos e civilizados
Seja, tantas vezes, não separar o dia da noite
De dizer dizer coisas vá noite
Que só deveriam dizer-se e dia.
Longe, muito longe, vai o tempo
Em que não havia um caixote, chamado televisão,
Vendedor de sonhos, ilusões e historias dos outros.
Assassina das historias pessoais
De tanta gente.
February 25 EM VIAGEMAos dezasseis encontro-me
em Máximo Gorky
A minha Infancia,
A minha adokescência,
A minha juventude,
Tres livros, tres espelhos meus.
De Dostoievsky sou O Jogador que tudo perde,
E o Eterno Marido dos meus amores sombrios
De antes sofrer,
Que ficar vazio.
Na Mãe Coragem de Brecht
Não sei que personagem represento
E faço de ponto.
Aos dezoito anos , Marx e Engels, em 1848.
Compro o Manifesto,
Na cave de uma livraria em Lisboa,
Com o dinheiro de dois anéis que ponho no prego,
Música para os meus ouvidos , em tempo de ditadura.
Sinto-me pedreiro ou carpinteiro bolchevique,
Mas ao fim de dez anos abandono a utopia,
O mesmo tempo que Ulisses demorou
Para alcançar Ítaca,
Resta a Social Democracia Europeia
Para ser contra.
Agora ouço Pavarotti and his friends
No concerto para o Camboja e o Tibete.
Continuo a mudar e a mudar-me,
Agora no balet das palavras,
Em que pronomes e advérbios
Se tornam por vezes substantivos
E frequentemente esqueço as vírgulas
E pontos finais.
Ou Andy Wharol em papéis
Colados com cuspo,
A ver em Nova Yorque
"Les trois demoisellhes d'Avignon"
Pablo Picasso
Modern Art Museum
Puxa Gente,
Eu subi na vida!
DON'T CRY FOR ME, ARGENTINA
I
Tu na capa da Playboy E eu piloto de carros de Formula 1 Estranho mas aconteceu, Numa revista vendedora de ilusões
II
Ela diz que sou lindo, Charmoso, Maravilhoso, Mima-me. Conta-me segredos, Diz que gosta de tudo o que faço e digo, Que me quer para seu homem E marido.
Está bem, prometo pensar, Para a semana que vem digo.
III
Ave Dinheiro, De todos os deuses o mais louvado E mais adorado, e mais querido. Senhora dos Abandonados Miserere mei.
IV
Quando a realidade é má O melhor é virá-la do avesso. Quem sabe se não resultará um sonho lindo. Lá diz o povo sábio de tudo, Quando uma porta se fecha Uma janela se abre.
V
Corro pelas manhãs, tardes e noites, Procuro-me e de mim não sei senão Esta angústia que me rasga o peito Culpa de quem fez o mundo E inventou Adão, ou Apenas eu, sem jeito.
February 20 ALELUIAChove de mansinho na Lardosa.
Eu e tu, o meu braço por cima dos teus ombros, a minha mão na tua face. Blusão de lã, cabeças molhadas.A tua perna tão colada á minha que por vezes quase caímos, a caminho no café Picasso.
Tu, mulher jovem madura, a que atravessou desertos e subiu montanhas, amores, desamores, eu sei lá.
Quiçá apaixonada sem objecto de paixão. Ou talvez não.
Doce melodia,longa viagem. Tenho pressa de te amar.
A Primavera começou este ano mais cedo. É Fevereiro e o tempo da ternura.O vento mudou de cor.
Nasceu uma rosa no meu pensamento e de novo amanheço.
Quero dar-te um beijo. Agora não, dizes,oferecendo os lábios.Relembro Manuel Bandeira, "vou embora pra Pasárgada, lá sou amigo do Rei, lá tenho a mulher que quero, na cama que escolherei..."
Vamos para a Lardosa, tenho lá uma casa grande com lareira. Lá respira-se o ar puro da manhã e até os que estão no Além regressam.
Chove de mansinho na Lardosa. Um vento norte, brisa ligeira. Um frio de rachar. Chove de mansinho, mansinho, tão mansinho que quase não molha. February 13 CANTADA DE DOMINGO Á TARDEHá um silencio aqui e casa,
Nas arvores lá fora, nas nuvens,
Na rua.
Olho as tuas fotografias onde
Quase sempre sorris. Lembro-me que o teu nome
Tem quatro letras.
Tal como a palavra Amor.´
E assim te canto neste Agosto.
Lembro-me também de uma conferencia
Em Lisboa, onde me suusurraste ao ouvido
Quero namorar contigo!
Fiquei fascinado, parado, sem dizer nada.
Amanheci ou ressuscitei nesse dia que
Agora recordo respirando o teu cheiro
Nesta tarde melancólica de Setembro,
Neste silencio de vertigem ou pausa.
E assim te canto.
Também em ti observo a mudança
Inverno-primavera, da realidade
Para o sonho que queres alcançar.
Faço ao silencio e a mim próprio
Perguntas porquês quês.
A que nem eu nem o silencio
Sabemos dar respostas.
Perco-te e encontro-te neste adiar do amor.
E assim te canto.
Canto-te para que realmente existas,
Talvez que ao pronunciá-lo se inicie a magia
que me torne capaz de te conquistar.
Idades esquecidas, olhos de criança, de adolesente,
De homem e mulher maduros.
As tuas fotografias são o meu bâlsamo
E assim te canto.
Alegro-me ao olhar esta foto de um jantar em S.Diego,
Onde também estive mas não nos encontrámos.
E assim te canto.
Um silencio nos tolhe,
Minhas que não és minha porque as cantadas
Sao todas mortais e duram o tempo de as cantar
E pouco mais.
Por isso te continuarei a cantar para o futuro
Para o viver ao vivo
Porque a vida tambem são os sonhos e as ilusões
Quero sempre e sempre mais.
E como Lobo Antunes te digo,
"Atè ao fim do mundo"
Até ao nunca mais.
grupinho da filhota
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